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Nação Nagô Vodun: A Ancestralidade Africana que Resistiu no Brasil

  • Foto do escritor: Babá Faromim
    Babá Faromim
  • 21 de mai.
  • 7 min de leitura
Ritual tradicional em um terreiro, com mulheres vestidas de branco em meio a tambores e estátuas, compondo um cenário de devoção e espiritualidade. (o registro não possui referências, pois foi criado por Babá Faromim com a ajuda da IA com junções de fotos de arquivos mais refrências orais dos seus egbomes)
Ritual tradicional em um terreiro, com mulheres vestidas de branco em meio a tambores e estátuas, compondo um cenário de devoção e espiritualidade. (o registro não possui referências, pois foi criado por Babá Faromim com a ajuda da IA com junções de fotos de arquivos mais refrências orais dos seus egbomes)

Falar sobre a Nação Nagô Vodun é falar sobre memória ancestral, resistência negra, preservação espiritual e continuidade africana dentro do Brasil. Muito além de uma vertente religiosa, o Nagô Vodun representa um dos maiores símbolos da permanência cultural dos povos africanos trazidos à força durante o período escravocrata.


Dentro dos terreiros, quando se fala em Nagô Vodun, estamos falando da união entre fundamentos nagôs ligados aos povos iorubás e fundamentos voduns, oriundos principalmente dos povos fon, jeje e mahi do antigo Reino do Daomé. Essa tradição preserva cantigas, rezas, fundamentos ritualísticos, iniciações, folhas sagradas, sistemas hierárquicos e formas de culto que atravessaram o Atlântico e sobreviveram ao apagamento histórico imposto pela escravidão.


Mais do que uma religião, o Nagô Vodun é um testemunho vivo da capacidade dos povos africanos de reconstruírem suas cosmologias mesmo diante da violência colonial.


A Origem Africana da Nação Nagô Vodun


Mapa histórico da África Ocidental nos séculos XVIII e XIX, destacando os reinos de Daomé, Oió e Ketu, com localização de cidades importantes ao longo do Golfo do Benin.
Mapa histórico da África Ocidental nos séculos XVIII e XIX, destacando os reinos de Daomé, Oió e Ketu, com localização de cidades importantes ao longo do Golfo do Benin.

Historicamente, a tradição Nagô Vodun possui raízes profundas na África Ocidental, especialmente nas regiões correspondentes aos atuais:


  • Benin;

  • Togo;

  • Nigéria;

  • Gana;

  • e partes do antigo território do Daomé.


Essas regiões abrigaram alguns dos mais sofisticados reinos africanos pré-coloniais, responsáveis por sistemas políticos, militares, comerciais e religiosos extremamente organizados.


Entre os principais reinos ligados às origens do Nagô Vodun estão:


  • Reino do Daomé;

  • Império Oió;

  • Reino de Ketu;

  • Reino de Allada;

  • Reino de Abomey;

  • Territórios Mahi;

  • e regiões Ewe-Fon.

Mapa histórico comparativo da África Ocidental que ilustra a transição dos antigos reinos e povos africanos, como Oió, Daomé e Ketu, entre os séculos XVII e XIX, para as atuais nações, incluindo Gana, Togo, Benin e Nigéria, do século XX até a atualidade.
Mapa histórico comparativo da África Ocidental que ilustra a transição dos antigos reinos e povos africanos, como Oió, Daomé e Ketu, entre os séculos XVII e XIX, para as atuais nações, incluindo Gana, Togo, Benin e Nigéria, do século XX até a atualidade.

O Reino do Daomé, localizado onde hoje está o Benin, tornou-se um dos maiores centros do culto aos Voduns. Sua estrutura religiosa era profundamente organizada, possuindo sacerdotes, sacerdotisas, templos reais e cultos ligados diretamente à monarquia daomeana.


Já o Império Oió foi um dos maiores impérios iorubás da África Ocidental. Sua influência política e cultural espalhou o culto aos Òrìṣàs por diversas regiões africanas. Foi desse universo iorubá que vieram muitos fundamentos nagôs preservados no Brasil.


O Reino de Ketu, por sua vez, possui enorme importância para as tradições afro-brasileiras. Muitos sacerdotes e sacerdotisas trazidos ao Brasil eram oriundos dessa região, considerada um dos grandes centros espirituais iorubás.


O termo “Nagô” passou a ser utilizado no Brasil para designar os povos iorubás, especialmente aqueles vindos das regiões de Oió, Ketu e Ijexá.


Já o termo “Vodun” vem da língua fon e significa:


“espírito”, “força sagrada”, “mistério divino” ou “divindade ancestral”.


Entre os povos jeje-fon, os Voduns representam forças divinizadas ligadas:

  • à natureza;

  • aos ancestrais;

  • à fertilidade;

  • à justiça;

  • à cura;

  • ao equilíbrio espiritual;

  • e à manutenção da vida coletiva.


Segundo o historiador Luís Nicolau Parés, as tradições Jeje tiveram papel fundamental na formação religiosa afro-brasileira, especialmente na Bahia e no Maranhão, onde muitos fundamentos africanos foram preservados através da oralidade, dos rituais e da hierarquia sacerdotal.


O antropólogo Pierre Verger também documentou profundamente as conexões entre os povos do Golfo do Benin e os cultos afro-brasileiros, demonstrando como diversas famílias africanas reconstruíram suas práticas religiosas no Brasil mesmo diante da escravidão.


Reginaldo Prandi, outro importante pesquisador das religiões afro-brasileiras, destaca que os cultos afro não surgiram de forma improvisada no Brasil. Eles foram reorganizações complexas de sistemas religiosos africanos altamente estruturados.


Como o Nagô Vodun Chegou ao Brasil



A chegada do Nagô Vodun ao Brasil está diretamente ligada ao tráfico transatlântico de africanos escravizados entre os séculos XVIII e XIX.


Milhares de africanos oriundos da chamada Costa dos Escravos foram trazidos para:


  • Bahia;

  • Maranhão;

  • Pernambuco;

  • Rio de Janeiro;

  • Alagoas; e outras regiões brasileiras.


Entre esses povos estavam:


  • sacerdotes; sacerdotisas;

  • iniciados;

  • reis; rainhas;

  • caçadores; curandeiros; ferreiros;

  • tocadores de tambor;

  • guardiões da tradição oral;

  • e conhecedores das folhas sagradas.


Muitos desses africanos pertenciam a famílias sacerdotais tradicionais na África.


Mesmo separados de suas terras, esses povos mantiveram vivos seus cultos através:


  • dos tambores;

  • das folhas;

  • das rezas;

  • das iniciações;

  • da oralidade;

  • dos idiomas africanos;

  • e da ancestralidade.


Foi no Brasil que muitos fundamentos nagôs e jejes passaram a coexistir dentro dos mesmos espaços religiosos, formando aquilo que hoje conhecemos como tradição Nagô Vodun.


Essa união não aconteceu por acaso, e sim uma estratégia de sobrevivência espiritual. Os povos africanos escravizados precisaram reconstruir suas identidades religiosas em um território hostil, onde seus cultos eram perseguidos, proibidos e criminalizados, a miscigenação religiosa dentro dos terreiros foi uma forma de resistência.


O Significado dos Voduns e das Energias Cultuadas


Dentro da tradição Nagô Vodun, os Voduns são forças ancestrais divinizadas. Diferente da visão ocidental sobre “deuses”, os Voduns representam energias vivas da criação, da natureza e da ancestralidade.


Cada Vodun possui: fundamentos próprios; folhas específicas; ritmos; cores; símbolos; comidas rituais; e funções espirituais específica, dentre eles, alguns mais conhecidos são:


Sakpatá (Sàkpátá)



Ligado à terra, às doenças e à cura. Sakpatá representa os mistérios da saúde, da transformação espiritual e da relação entre vida e morte é uma das divindades mais respeitadas dentro das tradições jeje-fon.


Heviossô (Xevioso)



Vodun do trovão, dos raios e da justiça divina, relaciona-se ao fogo celeste, ao poder régio e ao equilíbrio das ações humanas, possui forte ligação simbólica com Ṣàngó dentro das tradições iorubás.


Dan


Vodun serpente associado à continuidade da vida, ao movimento espiritual e à ligação entre céu e terra, Dan representa o fluxo da existência e os ciclos da criação.


Lissa e Mawu



Representam princípios complementares da criação:


  • Lissá associado ao masculino, ao sol e à força expansiva;

  • Mawú ligada ao feminino, à lua, à maternidade e à fertilidade.



Relaciona-se à profundidade espiritual, à maternidade ancestral e à força das águas, dentro da tradição Nagô, muitos desses fundamentos dialogam simbolicamente com Òrìṣàs cultuados entre os iorubás.


Por isso encontramos relações entre:


  • Heviossô e Ṣàngó;

  • Sakpatá e Omolu/Obaluaiyê;

  • Dan e Oxumarê.


Contudo, dentro do Nagô Vodun, cada Vodun possui identidade própria, liturgia própria e fundamentos específicos.


A Formação do Nagô Vodun no Maranhão


O Maranhão é considerado um dos maiores centros históricos do culto Vodun no Brasil.


Foi em São Luís que surgiram importantes casas tradicionais como:


  • Casa das Minas;

  • Casa de Nagô.


A Casa das Minas, também conhecida como:


Querebentã de Tói Zomadônu,


é considerada uma das mais antigas casas de tradição jeje do Brasil, pesquisadores apontam que ela foi fundada por africanas vindas do antigo Daomé, preservando até hoje fundamentos ligados aos Voduns da família real daomeana.


A Casa das Minas tornou-se referência histórica por preservar elementos extremamente antigos da tradição jeje, incluindo:


  • idiomas litúrgicos;

  • cantigas;

  • fundamentos iniciáticos;

  • e estruturas hierárquicas africanas.


Já a Casa de Nagô tornou-se referência da tradição nagô dentro do Tambor de Mina maranhense, preservando cultos aos Òrìṣàs, Voduns e Encantados.


Segundo Reginaldo Prandi, o Tambor de Mina representa uma das expressões afro-brasileiras que mais preservaram elementos da religiosidade africana tradicional.


O Nagô Vodun na Bahia


Embora o Maranhão seja uma grande referência do culto Vodun no Brasil, a Bahia também possui profunda importância histórica dentro da tradição Nagô Vodun.


Em cidades como:

  • Salvador;

  • Cachoeira;

  • São Félix;

  • Santo Amaro e Nazaré,


diversos fundamentos jeje-nagôs foram preservados através dos terreiros antigos.


A cidade de Cachoeira, no Recôncavo Baiano, tornou-se um dos maiores polos de preservação das tradições africanas no Brasil.

Foi ali que diversas famílias sacerdotais mantiveram cultos ligados aos Òrìṣàs e Voduns, preservando: línguas africanas; toques; folhas; fundamentos ancestrais e sistemas iniciáticos.


Já em Salvador, especialmente em bairros históricos ligados às comunidades negras, como:


Federação;

Liberdade;

Plataforma;

Itapuã;

Engenho Velho;

e Curuzu,


o Nagô Vodun encontrou espaço para continuidade religiosa através das casas tradicionais e das famílias iniciáticas.


Os Sacerdotes e as Casas Tradicionais do Nagô Vodun na Bahia


Vista histórica da Baía de Todos os Santos em Salvador, destacando a icônica arquitetura colonial da cidade e embarcações tradicionais no porto.
Vista histórica da Baía de Todos os Santos em Salvador, destacando a icônica arquitetura colonial da cidade e embarcações tradicionais no porto.

Ao longo da história, diversos sacerdotes foram responsáveis pela preservação do Nagô Vodun na Bahia, mantendo viva a tradição através da oralidade, das iniciações e da continuidade ritualística.


Entre os nomes importantes ligados à preservação dos fundamentos jeje-nagôs podemos citar:


  • Mãe Aninha;

  • Mãe Menininha do Gantois;

  • Joãozinho da Goméia;

  • Mãe Senhora;

  • Pai Procópio de Ogunjá e diversas lideranças tradicionais do Recôncavo Baiano.


Entretanto, dentro da tradição Nagô Vodun em Salvador, um dos nomes mais importantes foi:


Pai Valtinho de Logun Edé — também conhecido como Pai Valtinho de Iroko

Pai Valtinho de Logun Edé
Pai Valtinho de Logun Edé

Pai Valtinho tornou-se uma referência fundamental na preservação do Nagô Vodun na Bahia.


Reconhecido por fundar uma das casas mais antigas da tradição Nagô Vodun em Salvador, localizada em Itapuã, seu trabalho foi essencial para a continuidade dos fundamentos jeje-nagôs dentro da capital baiana.


Embora o registro oficial da casa seja datado de 1958, relatos históricos, fotografias antigas e testemunhos religiosos apontam que a tradição da casa é ainda mais antiga, antecedendo sua formalização documental.


Cena da construção do segundo barracão de Pai Valtinho, localizado na rua 29 de Outubro, número 15, no bairro de Itapuã, Salvador, Bahia. A estrutura em taipa revela uma vida simples e familiar, com crianças brincando na entrada do barracão. No registro encontra-se Ekedij Neuza de Iroko -  Obá Rokídéjó (a primeira ekedj da casa).
Cena da construção do segundo barracão de Pai Valtinho, localizado na rua 29 de Outubro, número 15, no bairro de Itapuã, Salvador, Bahia. A estrutura em taipa revela uma vida simples e familiar, com crianças brincando na entrada do barracão. No registro encontra-se Ekedij Neuza de Iroko - Obá Rokídéjó (a primeira ekedj da casa).

Isso demonstra uma realidade muito comum nas religiões afro-brasileiras:


Muitas casas existiam espiritualmente e ritualisticamente muito antes de possuírem registros oficiais.


Pai Valtinho de Iroko era conhecido pelo profundo conhecimento ritualístico, pela preservação das tradições ancestrais e pela manutenção rigorosa dos fundamentos do culto.


Sua casa tornou-se espaço de: iniciação; acolhimento espiritual; preservação cultural; resistência negra; transmissão oral do conhecimento e continuidade das linhagens iniciáticas. Muitos sacerdotes e iniciados passaram por sua influência direta ou indireta.


Seu legado permanece vivo através dos descendentes espirituais e das casas que continuam preservando os fundamentos Nagô Vodun na Bahia.


A Importância Histórica do Nagô Vodun


O Nagô Vodun representa a força da ancestralidade africana preservada no Brasil mesmo após séculos de escravidão, perseguições religiosas e apagamento histórico. Dentro dos terreiros, foram mantidos idiomas ritualísticos, cantigas, fundamentos litúrgicos, culto aos ancestrais e conhecimentos sagrados ligados às folhas, à cura e à natureza.


Como apontam estudiosos como Pierre Verger, Luís Nicolau Parés, Reginaldo Prandi e Juana Elbein dos Santos, as religiões afro-brasileiras foram reconstruções organizadas e profundas de sistemas religiosos africanos, tornando o Nagô Vodun uma verdadeira expressão da África viva em solo brasileiro.


BABÁ FAROMIM


No próximo estudo:


O que são os Voduns?

Quem são essas forças ancestrais?

Qual a diferença entre Vodun, Òrìṣà e Nkisi?

E como essas energias atuam dentro das tradições afro-brasileiras?

 
 
 

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